Comuns
Artigo sobre a distinção de Comuns.
A palavra ‘comuns’ tem vários significados: (i) o que é vulgar, usual, que se repete (“é comum fazer sol no Verão”; (ii) as pessoas de uma comunidade ou sociedade, o povo - nós o povo! nós os comuns! (Camara dos Comuns na Inglaterra) (iii) o que é partilhado entre nós (“temos em comum o mesmo pai”); (iv) os bens, materiais ou imateriais que não tem proprietários e que são partilhados por todos os indivíduos (“a água é um bem comum”); (v) o que é administrado pelas comunidades (e.g. baldios).
Neste artigo, Comuns é a vida que faz parte de um Lugar, incluindo as pessoas que fazem parte da humanidade e que em cada momento estão num Lugar. Os bens que são partilhados pelos Comuns em cada Lugar são os Bens Comuns e podem ser materiais (e.g. água) ou imateriais (e.g educação). Ou seja, Comuns são toda a Vida, inlcuindo as pessoas que fazem parte da sociedade humana, junto com a sua cultura, tecnologia e interações sociais (relações). Os Comuns não são apenas beneficiários dos Bens Comuns, mas também são co-criadores e guardiões destes bens em cada Lugar.
O Lugar é o território, o local fisíco no Planeta Terra, que tem uma determinada história natural, geológica, cultural, económica, entre outros. Cada Lugar é um mosaico com muitos níveis sobrepostos. O Lugar também pode ser digital e contemplar uma comunidade online (e.g. Praticantes de Possibility Management) , uma rede (e.g. Global Ecovillage Network), ou uma comunidade que segue determinados princípios (e.g. Open Source).
O constructo de Comuns que apresento aqui é profundamente enraizado na ideia de co-criação, responsabilidade individual, agenciamento colectivo e interdependência. Abrange as pessoas, a sua cultura e tecnologia, bem como a ética que rege a sua acção dentro de uma sociedade.
Elinor Ostrom, economista e prémio nobel da economia, trabalha sobre os Bens Comuns, ou seja, o que ela chama de ‘comuns’ eu designo como ‘bens comuns’. bem como o Garrett Hardin que fez o famoso artigo da ‘tragédia dos comuns’.
Autores como David Bollier, Schumacher Center for a New Economics e associado ao P2P Foundation, e Peter Block, autor do Stewardship, estão mais próximos do constructo de Comuns como o introduzo aqui.
Em cada Lugar, os Comuns representam uma cultura específica, uma forma de ser e estar, e incluem todos aqueles que participam ativamente na missão de uma sociedade ou organização. Cada Comum é um holograma da sociedade ao seu redor, representando tanto a si mesmo, quanto um todo maior, dentro de uma visão sistêmica (‘whole system view’)", ou seja, cada Comum, ao agir, impacta a si mesmo, e ao coletivo.
Os Comuns são tanto beneficiários quanto cuidadores dos bens comuns, ou seja, não há separação entre quem usa e quem protege os recursos. Os Bens Comuns incluem:
Recursos naturais essenciais (e.g. água, ar, terra, biodiversidade).
Infraestruturas e conhecimento compartilhado (e.g. Wikipedia, software open-source).
Cultura (e.g. língua, arte, tradições, valores).
Sistemas vivos (e.g. a floresta, o oceano, o ciclo da água).
Sistemas sociais (e.g. educação, saúde, bairros, cidades).
Evolução do constructo de comuns
Ao longo do tempo e para nível de consciência, os Comuns foram apercebidos de formas diferentes.
Pré-modernistas (Sociedades Tradicionais)
Os Comuns são aqueles que compartilham laços tribais, religiosos ou ideológicos. Historicamente eram os que não pertenciam a nobreza ou ao clero.
Há uma visão de pertença rígida: quem está fora é visto como ‘o outro’ ou uma ameaça
Emergiu há mais de 5000 anos.
Exemplo: Povos indígenas que compartilham recursos naturais entre si, mas consideram forasteiros como intrusos. Ou as pessoas que são Comunistas ou Católicas.
Modernistas (Sociedades de Mercado)
A noção de Comuns é expandida para incluir todos os cidadãos dentro de um sistema de governança nacional ou universal (e.g. estado-nação, democracia liberal).
As pessoas passam a ser identificadas como cidadãos, consumidores, trabalhadores, entre outros.
O sucesso social é medido por métricas externas como a riqueza, produtividade o status. Geram-se as ‘externalidades’ e os ‘excluídos’.
Emergiu a cerca de 250 anos.
Exemplo: No capitalismo, os cidadãos têm direitos legais, mas são vistos principalmente como agentes econômicos que participam do mercado.
Pós-modernistas (Sociedades de Impacto)
Os Comuns passam a incluir toda a humanidade, independentemente de localização, cultura ou história.
A diversidade e inclusão são enfatizadas. As externalidades são consideradas e eliminadas (ou minimizadas).
As relações sociais passam a ser mediadas por negociação e defesa de diferentes perspectivas (stakeholders).
Emergiu a cerca de 50 a 60 anos.
Exemplo: Empresas B-Corp que tentam conciliar interesses ambientais, sociais e económicos - os 5 P’s.
Integrais (Sociedades Regenerativas)
Os Comuns são vistos como seres multidimensionais, contendo aspectos físicos, emocionais, mentais, energéticos e arquetípicos. São extendidos para incluir toda a Vida.
Cada indivíduo tem um papel essencial e interdependente na sociedade.
A consciência é central e inclui todas as formas de vida.
Emergiu a cerca de 20 a 30 anos.
Exemplo: Ecovilas onde seres humanos e natureza são tratados como um único ecosistema interdependente.
Pós-Integral (Sociedades de Comuns)
Os Comuns tornam-se co-criadores conscientes da sociedade.
A identidade individual e coletiva é fluida, adaptável e interdependente.
O foco é no legado intergeracional e na regeneração contínua dos ecosistemas.
A sociedade é organizada por meio de organizações de comuns, que cuidam dos Bens Comuns.
A emergir.
Exemplo: Tamera, Comunidades geridas pelos CLTs (Community Land Trusts) como a Comunidade Celo ou movimento mondragon com origem no País Basco.
Ética dos Comuns
Os Comuns não pode ser separados da Ética dos Comuns, que se baseia na ideia que a minha participação cria valor não material (se eu vou a praia, a praia fica melhor porque eu lá estive) e nos seguintes princípios:
Participação ativa na sociedade: Quando escolho fazer parte de algo, também assumo responsabilidade sobre isso.
Representação individual e coletiva: Eu me represento a mim mesmo, mas também represento o todo.
Responsabilidade intergeracional: O que faço hoje impacta as gerações futuras e a vida na Terra.
Cuidados regenerativos e não extrativos: Uso os recursos da Terra sem explorá-los, garantindo sua continuidade.
Exemplo prático: Se estou na praia e vejo lixo, eu assumo a responsabilidade de apanha-lo, mesmo que não tenha sido eu a deixado ali.
Uma linha histórica…
Os Comuns representam uma linha contínua de resistência, inovação e regeneração social ao longo da história da humanidade. De emancipação da condição humana, de libertação, que incluem movimentos de direitos humanos e abolição de escravatura, descolonização e emancipação de povos, direitos cívicos, das mulheres, crianças, dos animais, da natureza.
Pelo menos, desde os tempos bíblicos até o século XXI, os comuns tem estado no centro de lutas por justiça e emancipação social. Pelo acesso a terras e recursos naturais, incluir direitos políticos, sociais e ecológicos: Vamos traçar essa linha, ligando as revoluções espirituais, políticas, sociais e ecológicas que moldaram a humanidade (alguns marcos).
Tradição bíblica
Moisés e o Êxodo (c. 1300 a.C.)
Jesus e a revolta contra o jugo Romano
As revoluções modernas (Século XVII-XVIII)
Revolução Inglesa (1642-1689)
Revolução Americana (1775-1783)
Revolução Francesa (1789-1799)
Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789)
Movimentos de Emancipação Social do século XX
Gandhi e a Independência da Índia (1947)
Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948)
Movimentos de Descolonização na África e Ásia (1950-1975)
Nelson Mandela e o Fim do Apartheid (1994)
Martin Luther King e os Direitos Civis nos EUA (1960s)
Revolução Portuguesa (1974)
Independência de Timor-Leste (2002)
Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas (2007)
Direitos das Mulheres
Sufragismo (Século XIX-XX)
Direitos Reprodutivos (Século XX)
Direitos das Crianças
Declaração Universal dos Direitos da Criança (1959)
Convenção sobre os Direitos da Criança da ONU (1989)
Direitos dos Animais
Movimentos vegan (Século XX)
Declaração Universal dos Direitos dos Animais da UNESCO (1978)
Direitos da Natureza
Constituição do Equador (2008)
Lei dos Direitos da Mãe Terra na Bolívia (2010)
Reconhecimento do Rio Whanganui na Nova Zelândia (2017)
No nosso tempo (século XXI) estamos a construir novas estruturas para garantir a regeneração da vida e a gestão coletiva dos recursos, ou seja, a luta dos Comuns não é apenas uma memória histórica – é um projeto em construção para o futuro da humanidade.
O próximo passo da (r)evolução dos Comuns são as Sociedades de Regenerativas, focadas no Bem-estar individual, bem-estar colectivo e bem-estar da Vida e da Terra, em simultâneo.
Para mim, a evolução das sociedades segue na direcção das Sociedades de Comuns que representam a unificação de todas essas lutas, criando um modelo social que protege e expande os Comuns para todos os seres vivos:
Um novo paradigma civilizacional.
Para toda a teia da vida.
Evolução da consciência humana.
Ou seja, o movimento dos Comuns, desde Moisés até os dias de hoje, está culminando em um novo sistema, onde todas as formas de vida são reconhecidas como parte de um grande bem comum global.
Distinções
Lugar
Comum (ou Comuns)
Bem Comum (ou Bem Comuns)
Ética de Comuns
Sociedade de Comuns
Os meus serviços…
Trabalho Memético: Consultoria e Treinos (artigo de Jan.2026)
Trabalho de Equipas: Mentoria e Treinos (artigo de Fev.2026)
Trabalho Emocional: Coaching e Treinos (artigo de Dez.2025)
Segurar espaço é a competência transversal que, ao nível individual, se manifesta como trabalho emocional; ao nível cultural, como trabalho memético; e ao nível relacional, como trabalho de equipas.
“We have paleolithic emotions, medieval institutions, and godlike technology”
Edward O. Wilson, biólogo
Treinos
A Arte de Segurar Espaço e a Facilitação de Processos Dialógicos Circulares, 19, 20 e 21 de Junho, 2026, Carcavelos
Empower Your Life: Health (Set.2026)
Grato por leres este texto. Faz parte do trabalho de exploração sobre Sociedades Regenerativas e Sociedades de Comuns.
Todos os conteúdos são gratuitos.
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