Introdução
Tomo III do livro "A Emergência das Sociedades de Comuns"
Tomo III
Portugal: a primeira Sociedade de Comuns
Portugal visto do espaço.
“Reconhecimento à Loucura”, Almada Negreiros
“Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exatamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-Ihe e ganhar-Ihe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?
Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais.
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar.”
Introdução
Num sábado de manhã de Outubro de 2024, fui meditar na meditação colectiva, presencial e semanal da comunidade Heartfulness em Lisboa, no Centro de Interpretação da Pedra do Sal em Cascais. Estava um dia fantástico de Outono, com sol e uma temperatura agradável. Na meditação, ouvia-se o mar a bater nas pedras. Um daqueles dias em que me sinto abençoado por ter escolhido nascer em Portugal e viver nesta zona - desde Julho que estou a viver em Carcavelos. O Vasco Gaspar, companheiro no ‘caminho de Orion’ trouxe-me o livro Portugal, a primeira nação templária de Freddy Silva. Mal sabia o que me esperava.
Gosto de história. Gosto da história de Portugal, em particular perspectivas diferentes, gosto de saber como as pessoas e as ideias se cruzaram no tempo e deram origem ao novo. O tema dos templários e das suas ordens (Ordem dos Cavaleiros do Templo e da Ordem de Cristo) fascina-me. Ao longo do tempo fui aprendendo sobre a sua história, obra e influência na sociedade portuguesa. Tendo casado com uma albicastrense, mãe dos meus filhos, que estudou em Tomar e vivido em Sintra, rapidamente fui introduzido ao eixo Sintra - Monsanto, passando por Tomar, Castelo Branco e muitas das terras fundadas e administradas pelos templários. Antes de começar a preparar o almoço, naquele sábado de Outubro, dei uma espreitadela para o livro e comecei a ler algumas partes e não consegui parar. Parei no domingo pelas 19h quando acabei de o ler. E que leitura! Este foi o primeiro impulso, o impulso que me colocou em estado líquido e que abriu a porta para escrever este livro.
Um segundo impulso, mais antigo, que estava adormecido nesta fase, surgiu quando vi a entrevista de Tomas Björkman com o David Fuller. Nesta entrevista Tomas fala do ‘segredo nórdico’ de como as Sociedades Nórdicas passaram das sociedades mais pobres na Europa, em meados do século XIX, para uma das mais prósperas no presente e a liderar, no Mundo, a transição para as Sociedades de Impacto há várias décadas. Uma rede de mais de 300 centros de retiros espalhados pela Escandinávia, acolhia jovens, na casa dos 20 anos, independente do seu nível de escolaridade, podiam passar 6 meses, pagos pelo estado, numa jornada de iniciação que visava desenvolver a capacidade de manter a sua autoridade e soberania pessoal ao serviço do bem comum. Estima-se que, no início da década de 1900 mais de 10% dos jovens destas sociedades tenham passado por este programa. Que inspiração. (ver Anexo III.D )
O terceiro impulso resulta do trabalho realizado com o Innovations for the Future (Inovações para o Futuro) nos últimos 7 anos. É uma rede de pessoas e mundojogos, em Portugal, que está a explorar, a experimentar na direcção das “Sociedades Regenerativas”, nas últimas 3 décadas. Das várias jornadas de percepção e aprendizagem (learning and sensing journeys), visitas e entrevistas realizadas a muitos destes projectos, notei a emergência de um conjunto de espaços com características especiais a que chamei ‘espaços de comuns’ (legacy spaces). Esta ideia de ‘legado’ (legacy) e ‘pensamento em legado’ (legacy thinking) tem sido trabalhada pelo Paulo de Carvalho e Claudian Dobos - no Anexo III.A podem ver uma breve apresentação deste tema.
Este Tomo nasce do cruzamento destes três impulsos:
do legado histórico de Portugal, de uma história que me faz sentido e que me ancora numa cultura milenar de amor e evolução;
do legado, do exemplo, das sociedades nórdicas, que mostraram o caminho para a transição de “Sociedades Tradicionais”9 para “Sociedades de Impacto”9 em cerca de 100 a 150 anos;
do legado presente em Portugal, neste momento do tempo, de uma rede de potenciais ‘espaços de comuns’, modelos/ propostas de desenvolvimento humano e pessoas com competências para fazer, bem como de um mapa para as “Sociedades Regenerativas”9 que nos pode ajudar neste caminho.
Ou seja, temos a vocação para o fazer, faz parte da nossa essência enquanto Povo, temos um exemplo que funcionou em outros Povos e há condições específicas no presente em Portugal para apontarmos na direcção das Sociedades de Comuns, uma proposta de inovação social transformativa para o bem estar individual, bem estar colectivo, bem estar do Planeta Terra e de toda a sua Vida (que inclui os Seres Humanos).
Sobre as Sociedades Regenerativas ver o Tomo II. É um mapa para nos aventurarmos neste território novo, desconhecido, de co-criarmos sociedades de Amor e Paz para todos os Seres Vivos - Sociedades de Comuns. Sobre a minha caminhada para ser um explorador em e para as Sociedades Regenerativas e Sociedades de Comuns ver o Tomo I: é um tomo pessoal, escrito na primeira pessoa que mostra as escolhas que fui fazendo e me trouxeram até este momento de estar a escrever este livro. A minha história mostra que é possível, que um mortal, que um ‘comum’, pode fazer a ‘jornada do herói’ e abraçar este desígnio de Viver centrado na sua autoridade pessoal e em co-criação colaborativa com outros adultos para o bem comum da Vida no Planeta Terra e como esta jornada foi feita.
Este Tomo está estruturado em cinco partes:
Uma perspectiva da História dos Comuns onde vou descrever uma força histórica de emancipação e liberdade humana que vem acontecendo pelo menos há 3000 anos; interessa-me identificar a direcção, o fluxo do rio;
Uma perspectiva sobre a História de Portugal onde descrevo o Segredo Português, uma perspectiva mais intuitiva e escolhendo estórias que me empoderam enquanto indivíduo e, penso que ao coletivo. estórias que, para mim, mostram o impulso evolucionário do povo deste Lugar, o seu propósito brilhante; a sua interligação com a força histórica do nosso tempo;
‘Os espaços de comuns’, onde vou apresentar as características destes espaços, os exemplos que vejo surgirem, bem como as práticas que os podem fundamentar; os espaços de comuns é a proposta para as ‘catedrais’ das Sociedades de Comuns.
‘Programa para uma Sociedade de Comuns’ onde coloco as linhas fundamentais de um programa de Florescimento Humano para criar uma transformação individual e colectiva;
‘O papel das diferentes organizações’ onde ofereço possiblidades para alguns mundojogos, tão importantes nas nossas sociedades, poderem desempenhar um papel chave nesta transição e a suportarem.
Para terminar esta introdução quero dizer que sou um criativo cultural, um inovador social e que acredito que é possível fazermos a transformação social em Paz e com Amor. Não tenho uma noção naive de ‘Amor e Paz’; sigo a perspectiva que Adam Kahane, inovador social, tem sobre o tema, que considera expressões determinadas de “Pára!”, “Sim!” e de “Não!” como nos mostraram Martin Luther King, Gandhi, Mandela e Aristides de Souza Mendes, entre muitas outras pessoas.
A história da Humanidade não mostra este padrão de paz, em particular a história recente da humanidade em que tivemos 2 guerras mundiais nos últimos 100 anos, ou a revolução Americana e a revolução Francesa há cerca de 250 anos. Acredito que é possível que a transição que estamos a fazer seja a primeira grande transição, a primeira grande alteração de paradigma que venha em Paz. Afinal, sou filho da Revolução dos Cravos que, tendo havido pessoas que perderam a Vida, foi uma revolução em Paz (sem guerra) para acabar com a guerra (neste caso a ‘guerra colonial’ Portuguesa) e emancipar povos.



