Sobre comuns
Anexo II.F do livro "A Emergência das Sociedades de Comuns"
Embora a maior parte dos autores esteja a falar da evolução das Sociedades de Mercado e das Sociedades de Impacto, a direcção apontada segue na direcção das Sociedades Regenerativas e de comuns. Os livros e artigos cobrem vários tópicos dos indicados. Coloquei no que penso ser a contribuição mais notória.
Bem Comum e Ética
Elinor Ostrom (Livro: Governing the Commons): Desafiou a “tragédia dos comuns”, demonstrando que comunidades podem gerir eficazmente recursos. Propôs 8 princípios para a governança bem-sucedida dos comuns.
Riccardo Petrella (Livro: The Water Manifesto): Defende o bem comum como direito universal e critica a privatização de recursos essenciais, como água, propondo sua gestão pública e comunitária.
Michael Sandel (Livro: Justice: What’s the Right Thing to Do?): Argumenta que a ética deve moldar políticas públicas, priorizando o bem comum sobre interesses individuais e critica a comercialização de áreas fundamentais como saúde e educação.
Thomas Berry (Livro: The Great Work): Propõe a “Grande Comunidade da Terra”, onde humanos e natureza estão integrados. Defende uma ética ecológica para proteger a Terra como um ser vivo.
Garrett Hardin (Artigo: The Tragedy of the Commons): Propôs a teoria da “tragédia dos comuns”, alertando para a sobre-exploração de recursos compartilhados. Embora controversa, a sua obra gerou debates sobre governação eficaz dos comuns.
Organização de Comuns
Frederic Laloux (Livro: Reinventing Organizations): Propõe organizações colaborativas (Teal Organizations) que funcionam sem hierarquias rígidas, separando poder, lucro e governança e priorizando a missão da organização.
Marjorie Kelly (Livro: Owning Our Future): Defende modelos de propriedade como cooperativas e trusts comunitários, criticando o modelo tradicional de acionistas e propondo redesenho da propriedade para beneficiar comunidades e o planeta.
Peter Block (Livro: Stewardship: Choosing Service Over Self-Interest): Introduz o conceito de stewardship (administração responsável), onde a liderança é voltada para servir ao bem comum, capacitando todos os membros da organização.
Robert K. Greenleaf (Livro: Servant Leadership): Propõe que líderes devem priorizar o bem-estar e o desenvolvimento dos outros, promovendo um modelo de liderança servidora, baseado na colaboração e no empoderamento. Quer na dimensão das pessoas, quer na dimensão em que as organizações também lideram (organizations as servent). Embora formulado em estruturas hierárquicas, o seu contexto é compatível com as estruturas holarquicas.
Clay Shirky (Livro: Here Comes Everybody): Explora como a internet e as ferramentas digitais facilitam a organização coletiva sem hierarquias tradicionais, permitindo que grupos auto-organizados possam e gerir bens comuns de maneira descentralizada.
Fábio Brotto, Carla Albuquerque, Daniella Dolme (Pedagogia da Cooperação): Fábio Brotto et all, propõem uma educação cívica (de comuns) centrada na convivência, escuta e cooperação, onde o aprender acontece através de relações humanas conscientes e coletivas.
Economia de Comuns // Propriedade de Comuns
Vandana Shiva (Livro: Earth Democracy): Defende a gestão comunitária da terra, sementes e biodiversidade como bens comuns essenciais, resistindo à privatização e propondo a agroecologia como alternativa regenerativa.
Peter Barnes (Livro: Capitalism 3.0): Introduziu o conceito de “trusts de bens comuns” para proteger recursos naturais, propondo que os lucros gerados sejam distribuídos como dividendos para a sociedade.
E. F. Schumacher (Livro: Small Is Beautiful): Defende uma economia descentralizada e sustentável, baseada em tecnologias apropriadas, produção local e respeito pelos limites ecológicos. Critica o crescimento ilimitado e propõe uma abordagem humanizada, onde o trabalho, a comunidade e a simplicidade voluntária são centrais. Introduz o conceito de “economia budista”, focada no bem-estar em vez do consumismo.
Charles Eisenstein (Livro: Sacred Economics): Propõe uma economia baseada em dádiva e interconexão, que valorize o cuidado, a comunidade e a sustentabilidade. Defende práticas como economia local, decrescimento e moedas complementares, conectando valores espirituais e ecológicos à economia.
Nipum Mehta: fundador do service space, Nipum é um desenhador de movimento sociais - mais informação ver em https://nipun.servicespace.org/ (não tem livros publicados)
Michel Bauwens (Fundador da P2P Foundation, Livro: Peer to Peer: The Commons Manifesto): A transição para uma sociedade baseada em bens comuns, impulsionada pela colaboração peer-to-peer, desafia o capitalismo e o Estado, promovendo modelos de governança descentralizados e sustentáveis.
Kate Raworth (Livro: Doughnut Economics): Criadora do modelo de Economia Donut, que busca equilibrar necessidades humanas com limites planetários, priorizando a equidade e a sustentabilidade.
Christian Felber (Livro: Change Everything: Creating an Economy for the Common Good): Criador da Economia do Bem Comum, que mede o sucesso económico pelo impacto social e ecológico, propondo práticas empresariais voltadas para o bem comum.
Jeremy Rifkin (Livro: The Zero Marginal Cost Society): Prevê a ascensão de uma economia colaborativa baseada em bens comuns, facilitada por tecnologias digitais e energias renováveis, como solução para os limites planetários.
Luigino Bruni & Stefano Zamagni (Livro: Civil Economy): Defendem uma economia que integra ética, virtudes e relações sociais, priorizando a justiça social, equidade e o bem comum sobre o lucro e os interesses individuais.
Paulo Roberto da Silva (Livro: Economia para a Consciência Emergente): Propõe uma economia baseada em consciência, solidariedade e sustentabilidade, onde o valor é gerado pela interconexão entre seres humanos e natureza.
Sociedade de Comuns/ Governação de Comuns
Serge Latouche (Livro: Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno): Defende o Decrescimento como atitude ética, como activismo ao modelo do crescimento infinito num planeta finito. Defende uma orientação da sociedade (da economia e do trabalho) em torno dos valores não-materiais (e.g. relacionais). Desenvolve um modelo de transição para uma evolução cultural mais profunda que transcende as Sociedades de Mercado.
David Bollier (Livro: Think Like a Commoner): Defende os comuns como alternativa ao capitalismo, promovendo governança colaborativa e sustentabilidade. Destaca a importância dos comuns digitais e propõe “infraestruturas de comuns” para autogestão comunitária.
Silke Helfrich (Co-autora de Free, Fair, and Alive): Argumenta que os comuns são práticas e relações sociais, não apenas recursos. Propõe um “triângulo dos comuns” (recursos, comunidade, práticas colaborativas) e defende uma visão emancipatória para além do Estado e do mercado.
Naomi Klein (Livro: This Changes Everything): Argumenta que os comuns são fundamentais para combater as crises climáticas e sociais, defendendo políticas de colaboração e justiça climática.
Donella Meadows (Livro: Limits to Growth): Alerta para os limites do crescimento e propõem transições sistêmicas que integrem bem-estar humano e ecológico, defendendo a interdependência global.
John Buck (Co-autor de We the People: Consenting to a Deeper Democracy): Desenvolve e difunde a sociocracia como um modelo de governança colaborativa, baseado em círculos interligados e tomada de decisão por consentimento, promovendo a gestão dos bens comuns, por comuns de forma descentralizada e participativa.


