Introdução
Tomo II do livro "A Emergência das Sociedades de Comuns"
Mapa para as Sociedades Regenerativas
e Sociedades de Comuns
Possibilidades para a inovação social transformativa em Paz
Mapa Cantino (1502) - Descobrimentos Portugueses no Século XV e XVI
“Um mapa de pensamento é um diagrama energético que mostra a relação e o fluxo de poder entre diferentes fatores. Podes compreender a importância dos mapas quando consideras que novas possibilidades muito reais foram criadas quando as pessoas mudaram seu mapa mental da Terra, de um disco para uma esfera. Adquiriste novas possibilidades não porque a Terra em si tenha mudado, mas apenas porque o teu Mapa Mental da Terra mudou. Tu não te relacionas com o mundo como ele é. Relacionas-te através dos seus mapas sobre o mundo. Se obtiveres um novo mapa, terás um novo mundo.”
Do https://distinctionary.mystrikingly.com/ (Possibility Management)
Introdução
O constructo de ‘sociedade’ é central em ciências (ditas humanas) como Sociologia, Economia, Ciência Política, História, Geografia, Antropologia, Direito, entre outras.
No contexto deste livro, refiro-me a um grupo de indivíduos soberanos, ligado por regras (leis), se relacionando, a fim de cuidar do bem comum, bem como dos processos que lhes dão origem e os suportam nas diferentes áreas, sejam de governação, produção de alimentos, energia, educação, economia, saúde, segurança social, industria, artes, só para citar algumas.
‘Regeneração’ é uma palavra muito usada no presente. No sentido quotidiano, está a ser usada para designar a recuperação de habitats e ecossistemas naturais que foram destruídos, como restaurar a floresta, os campos agrícolas, o vale, a mina ou a pedreira. Neste livro vamos mais longe, mais abrangente, referimo-nos à forma de pensar que se aplica a todos os indivíduos, relações, processos e áreas de uma sociedade; à capacidade de pensar como os sistemas vivos, como pensam os ecossistemas, as florestas, os corais.
Ou seja, quando falo em ‘Sociedades Regenerativas’ estou a falar do grupo de indivíduos soberanos que, usa formas de pensar (mapas mentais) como os sistemas vivos - pensamento em sistema vivos - para cuidar do bem comum, i.e., da Vida e as condições para a Vida na Terra, incluindo o bem-estar individual e colectivo dos seres humanos e das suas sociedades, como parte da Vida na Terra e contribuindo para esta. Que os processos que lhes dão origem e suportam as diferentes áreas são criados por esta forma de pensar. E as relações com todos os outros seres vivos, seus habitats e ecossistemas. Ou seja, é eco-socio-material, inclui a Vida, as diferentes espécies, incluindo os humanos, as leis/ regras e os mapas mentais que as originam.
‘Sociedades Regenerativas’ são uma utopia, no sentido em que, não existem no presente: ninguém sabe o que é e como se faz uma. Há experimentos de pequena escala, locais, que cuidam de alguns aspectos, como por exemplo modos de vida próximos dos ecossistemas naturais, que cuidam de solos, água, floresta, produzem energia sem uso de combustíveis fósseis, reutilizam roupas, móveis, produzem os seus cosméticos e criam uma percentagem significativa da sua comida - exemplos são as ecoaldeias ou as ‘comunidades em transição’. E em algum aspecto estão co-dependentes e co-relacionados com a sua envolvente que opera de outra forma, usando outros mapas de pensamento. Podem ser soberanos na energia e não ser na alimentação; podem depender de transportes como o avião, carro e comboio para o seu modo de vida (e.g. centros de retiros).
O que é uma ‘agricultura regenerativa’? ‘finança regenerativa’? ‘indústria regenerativa’? ‘educação regenerativa’? ‘saúde regenerativa’? ‘governação regenerativa’? Por exemplo. Poucos (ou nenhum de nós) sabe e, felizmente, há muitos experimentos a acontecerem um pouco por todo o lado - estes ‘criativos culturais’ que experimentam com novos mapas de pensar e criam novo conhecimento para todos nós.
Para suportar a escrita deste Tomo vou apoiar-me em 4 práticas principais (escolas):
Instituto Integral e a Teoria Integral;
Presencing Institute e a Teoria U;
Possibility Management;
Regenisis Institute e Desenvolvimento Regenerativo.
E em algumas complementares, ou seja, para determinados aspectos:
Permacultura;
The work that reconnects;
Macrobiotica;
Aprendizagem Aberta e Comunidades de Aprendizagem;
ISTA e a Sexualidade;
Process Work;
Delicate Activism;
Art-of-Hosting e a participação e colaboração;
Sociocracia 3.0 e governação circular, dialógica;
Effectuation e co-criação de mundojogos;
Game B;
Warm data.
Estas práticas estão descritas no Anexo II.A de forma sumária com alguns links para poderem ser exploradas; apresento também os contributos que trazem para as ‘Sociedades Regenerativas’. A forma como as tenho estado a viver está apresentada no Anexo II.C.
Um aspecto que quero sublinhar é o plural, ‘Sociedades Regenerativas’. Por um lado, porque estamos a falar de um mosaico complexo de culturas no Planeta Terra e de muitas maneiras de ser e fazer. Ou seja, estamos a falar de diversidade e reconhecer que não há só uma maneira de ser e fazer, de participar na Vida na Terra e contribuir para o bem-estar individual e colectivo da Vida na Terra. Também no sentido que dentro de cada sociedade há muitas sociedades, as organizações, as famílias, as comunidades locais, as florestas e por aí fora.
A história e a antropologia descrevem formas de viver que estão em linha com as ‘Sociedades Regenerativas’ - as culturas indígenas presentes hoje no mosaico cultural da humanidade são provas vivas disso; e atenção porque nem todas as práticas destas culturas são regenerativas, o que acontece é que o número de pessoas que as praticavam era baixo (pequena escala) e permitia à Vida se regenerar (e.g. abater floresta para a agricultura ou queimadas); um outro aspecto é a dimensão ética, algumas das práticas realizadas no passado podem não ser aceites hoje pelas sociedades modernas (e.g. caça, sacrifícios animais)
A grande questão é o que são ‘Sociedades Regenerativas’ no contexto actual e futuro, de um Planeta Terra praticamente coberto por Seres Humanos e onde a acção destes faz-se sentir, directa ou indirectamente, em todos os locais?
Neste Tomo vamos olhar para alguns dos mapas de pensar que criaram as sociedades presentes e que precisamos mudar e quais os mapas que estão a ser experimentados na direcção das ‘Sociedades Regenerativas’’: o que permeia todas as áreas e todos os processos que fazem emergir as sociedades humanas e a sua relação com a Vida e a Terra. Estes mapas criam possibilidades e convocam a nossa imaginação e ação.
Os seres humanos são Vida na Terra.
Os seres humanos são Terra.
Cada um de nós faz parte da Vida no Universo. Da Vida na Terra. Da Vida no Lugar onde habita. Da sociedade que o suporta. Da comunidade local onde tem os pés em cada momento.
A nossa responsabilidade ética não é ser guardião da Vida, isso cria um elo de superioridade entre os seres humanos e todos os outros seres; a nossa responsabilidade ética é assumirmos que somos parte da Vida na Terra e, dessa forma, seremos participantes conscientes e responsáveis por nutrir os processos que nutrem a Vida e as condições para a Vida.
Uma outra forma de introduzir as Sociedades Regenerativas é dizer que são as sociedades em que as culturas vigentes, operantes, são culturas responsáveis e regenerativas. Nos próximos capítulos vamos explorar estes mapas. O Gil Penha-Lopes e eu escrevemos um artigo, enquadrado no mundojogo PM+RD sobre as culturas responsáveis e regenerativas. No artigo podemos notar que há vários nomes a emergir:
‘Culturas Regenerativas’ com Daniel Whal;
‘Sociedades Regenerativas (4.0)’ com o Presencing Institute e a Teoria U;
Arquiarcado’ com o Possibility Management;
‘Game B’ com as pessoas ligadas ao Santa Fe institute e à complexidade como Jim Ruth e Daniel Schmachtenberger;
‘Sociedades integrais ou ‘teal’ com a Teoria Integral.
Há um aviso que faço ao leitor. Eu não tenho verdades, não ‘vendo’ verdades. O que coloco neste Tomo é o que fui experimentando nos últimos 20 anos da minha vida. Foi o que resultou comigo e me permitiu caminhar nesta direcção das Sociedades Regenerativas. A possibilidade é que o leitor leia e depois experimente; se for do seu interesse que use! Se não, é encontrar o composto mais próximo e colocar a compostar. Tudo o que partilho é em regime ‘creative commons’ e pode ser partilhado com outros, desde que a fonte seja identificada: e.g. Teoria U, Possibility Management, Desenvolvimento Regenerativo. Em Possibility Management diz-se que é ‘copyleft’ (em vez de ‘copyright’).



