Exemplo da economia da dádiva
Anexo II.G do livro "A Emergência das Sociedades de Comuns"
Exemplo da aplicação da economia/ecologia da dádiva a um programa de desenvolvimento humano
Por Marco de Abreu
Baseado na experiência do programa Deep U de Maria Daniel Brás e Vasco Gaspar
18 de Julho de 2019
>Estrutura
Contexto
Direitos
Modelo (M)
Processo (P)
Condição interior para aplicação (C)
Creditos
>Contexto
No contexto do programa Deep U (vascogaspar.com/deep-u/) de Vasco Gaspar e de Maria Daniel Brás, foi sendo desenvolvido e testado um modelo de economia da dádiva que aqui se apresenta. Este modelo foi desenvolvido desde Setembro de 2017 e contou com a colaboração de Marco de Abreu.
Neste contexto, o modelo apresentado poderá servir de inspiração para programas que se apresentam em formatos de cursos e workshops. Destina-se a organizadores/ hosts/ facilitadores de programas como é o caso de Vasco Gaspar, Maria Daniel Brás, Claudian Dobos, Filipa Simões e Marco de Abreu.
>Direitos
Os autores consideram este documento e o modelo apresentado ao abrigo da ‘Creative Commons licence CC BY-NC-SA’.
1ª versão a 18 de Julho de 2019 redigida por Marco de Abreu.
>Modelo (M)
O modelo que aqui se apresenta resulta de um conjunto de valores, conceitos e momentos base.
M.1 Princípios
Os princípios que regem o presente modelo são:
Inclusão. Garantir que todas as pessoas podem ter acesso ao programa, independentemente das suas condições financeiras;
Livre escolha. Garantir que cada pessoa fez uma escolha informada e consciente para estar neste programa, sem ter sido coagida de alguma forma; que é livre de fazer as escolhas durante e após o programa;
Transparência. Todo o modelo, processo e aplicação são transparentes para todas as partes, sendo facultada toda a informação necessária para decisões informadas e conscientes;
Sustentabilidade. O modelo visa criar sustentabilidade financeira e energética em todo o sistema, em quem participa, em quem oferece e em todas as partes envolvidas;
Abundância. Partimos do pressuposto da abundância, energética e material, que há um equilíbrio invisível, que a contribuição de cada um, consciente e informada, suporta este equilíbrio e contribui para a criação de abundância para todo o sistema em múltiplas formas de capital;
Interdependência. Que tudo está ligado com tudo, que um gesto de generosidade, um acto de compaixão, uma dádiva, uma apreciação produzem efeitos não-lineares que contribuem para a evolução dos sistemas e para a criação de abundância; que o passado-presente-futuro estão ligados, mesmo que não saibamos como, uma pessoa que fez uma prenda no passado, que encheu de beleza e gratidão uma pessoa no presente e que se sente inspirada a tocar o coração de uma pessoa que não conhece no futuro;
Generosidade. O programa parte de um gesto de generosidade, partilhar com o Mundo a experiência, o conhecimento dos seus autores, fazendo-o de uma forma desapegada, confiando na sabedoria de cada pessoa e que convida cada pessoa a ser generosa com o outro, suportado o processo, antes, durante e depois;
Direito a reserva (não exposição). Sendo o modelo transparente, garantimos o direito à reserva de cada pessoa; a informação é partilhada de forma agregada, sem identificar as partes, garantido as condições para decisões livres.
M.2 Papéis
Os papéis presentes neste modelo são:
Organizador/host/facilitador. Pessoa ou pessoas que vão dar vida ao programa e colocar a oferta. Estes 3 papéis, quer sejam realizados por pessoas separadas ou pela mesma pessoa, têm que partilhar do modelo e dos seus princípios. Sublinha-se o papel do facilitador por ser quem vai entregar os conteúdos e orientar as pessoas no modelo da dádiva durante a fase de entrega, suportado pelo host. O papel de organizador precisa ter em atenção as fases antes da entrega e após a entrega. Este documento foi redigido na perspectiva destes papéis.
Participante. Pessoa que vai participar no programa e que vai ser convidada a valorizar o programa, de acordo com os princípios da livre escolha, sustentabilidade, abundância e direito a reserva.
M.3 Intenção e compromisso
O modelo presente não tem uma valorização fixa, ou seja, a troca deixa de ser mediada e regulada por um valor monetário fixo, garantindo o acesso a todas as pessoas.
Neste contexto, importa garantir que a energia, a intenção - as razões pelas quais a pessoa participa, i.e., o que ela quer fazer com este conteúdo, com esta experiência no futuro - de cada pessoa que participa é a correcta para este programa, que cada pessoa tendo escolhido fazer sabendo ao que vem e como funciona, garantindo que a sua conduta, atitude e presença vai no sentido do seu desenvolvimento e de todos os presentes.
Os autores fazem uma oferta de programa e solicitam candidaturas. As pessoas informam-se e escolhem candidatar-se, submetendo-se a um processo de seleção focado na intenção (e não no valor).
O compromisso é o que sela a inscrição, i.e., se a pessoa foi seleccionada, comprometer-se a fazer o programa por inteiro e em dar o melhor de si, para receber o melhor dos outros, no sentido de cada um poder caminhar para a melhor versão de si próprio, para que se cumpra.
A oferta, candidatura, intenção, inscrição e compromisso constroem o contracto social que medeia esta relação e suporta a aplicação deste modelo.
M.4 Participação e valorização
A execução do contrato faz-se com a entrega do programa por parte dos autores e pela plena participação dos participantes.
No contexto da participação, os participantes são informados, de forma isenta, da teia de contribuições que está a criar a sua experiência, sejam em metodologias, prendas, voluntariado e outras dádivas, que criam a ecologia da dádiva. Importa sublinhar que os participantes, em muitos casos, têm várias experiências de receber, sem poderem agradecer, pois não sabem quem foram as pessoas que contribuíram para essa dádiva, o que convoca para uma reflexão sobre a reciprocidade e o servir com desapego do resultado e reconhecimento.
No modelo que seguimos, o programa inclui uma parte referente à valorização, trazendo a questão económica e de valorização para o alinhamento do programa, como ‘parte de’ e não como ‘condição de participação’.
Como parte do seu processo de participação e no contexto do programa, cada participante será chamado a valorizar a sua experiência e com base nos princípios da Sustentabilidade, Abundância e Reserva atribuir a sua dádiva, utilizando os múltiplos capitais e o seu contexto de abundância no presente.
É o acto de valorização e atribuição da dádiva que estabelece um novo estado no contrato social, um estado em que fecho o ciclo, em que manifesto a generosidade e interdependência, em que ligo passado-presente com o futuro, num contexto em que não conheço/ não sei quem contribuiu para mim e para quem vou contribuir.
No modelo, a conta apresentada a cada pessoa é zero, i.e., a participação de cada pessoa já foi assegurada pelas condições que outros que eu não conheço, generosamente, em função da sua experiência e vivência, colocaram à minha disposição. E eu sou convidado a fazer o mesmo para outros tendo em conta:
Valorização que faço da minha experiência, da minha vivência;
Da qualidade do programa e da relevância em que outras pessoas possam ter a mesma experiência que eu;
Na minha capacidade presente, na minha sustentabilidade e contexto de abundância, i.e., que capitais tenho disponíveis e como posso fazer uso deles para manter esta cadeira de generosidade, esta ecologia de dádiva;
No meu julgamento informado pela minha experiência, sabedoria no momento presente, do sentido que faço de toda a experiência.
M.5 Múltiplos Capitais
No contexto deste modelo vemos a dádiva no contexto de múltiplos capitais, a saber:
Capital espiritual: a minha capacidade em servir o outro, em suportar o seu processo, em fazer algo pelo gesto de fazer em que a recompensa é o próprio fazer, sabendo que não vou ser reconhecido por ter feito, em poder levar amor, compaixão e generosidade a outros, para que o outro possa crescer para onde faz sentido para ele crescer (ou não crescer de todo, até quiçá, não crescer) - capital de inspiração, compaixão e atenção.
Capital intelectual: a minha dádiva é sobre a forma de conteúdo resultante da minha criação, da manifestação do meu conhecimento e experiência, dos meus saberes, seja por exemplo um curso/ workshop, um livro, design, cartões ou outros bens de capital intelectual - capital de conhecimento e tecnologia (este documento é um exemplo deste tipo de capital).
Capital social: a minha dádiva é sobre a forma do meu tempo para participar em actividades relevantes ao contexto, seja por exemplo voluntariado no programa ou em instituições que o programa seja parceiro - capital de tempo, comunidade e cultura.
Capital material: dádiva em valores monetários passíveis de serem valorizados/ avaliados em moeda; estão incluídas aqui a dádiva em moeda (e.g. euro) - capital monetário, troca, bens imobiliários (e.g. acções) e mobiliários (e.g. terrenos, casas).
Capital Natural: a dádiva é sobre a forma de criação de capital natural como a regeneração de solos, habitats, purificação do ar e água, onde se pode incluir acções para plantar árvores, participar em acções de limpeza de praias, florestas, rios e lagos.
Um texto que pode complementar esta ideia dos múltiplos capitais é o do Nipun Mehta no ‘Daily Good’: http://www.dailygood.org/story/1260/unlocking-multiple-forms-of-wealth-nipun-mehta/
M.6 Dádiva
A dádiva (presente/ gift) é o contributo consciente da pessoa; poderá ser uma qualquer combinação destes capitais. É o que coloco à disposição de outros, através do programa, criando o movimento que sustenta a ecologia da dádiva.
As dádivas têm como condições virem de um sítio de sustentabilidade e abundância, nunca de culpa ou dívida (sentimento que estou a dever algo).
Seguem alguns exemplos retirados de casos reais:
Contribuição monetária
Contribuição monetária para pagar as refeições
Contribuição monetária + prestação de serviços (e.g. cozinhar no próximo evento)
Contribuição monetária + realização de workshop em … + voluntariado no programa para produzir prendas
M.7 Momentos chave
O modelo apresenta um conjunto de momentos chave, que importam explicitar:
Oferta (uma parte oferece). Os autores colocam uma oferta disponível, usando este modelo da economia da dádiva.
Candidatura (a outra parte recebe). As pessoas que querem participar fazem uma candidatura e submetem a sua intenção.
Inscrição e compromisso (firma o contrato social). Os candidatos são seleccionados e firma o seu compromisso com o programa. É estabelecido o contrato social.
Programa e Participação (uma parte entrega). Os autores entregam o programa; os participantes recebem o programa, numa dinâmica facilitada em que todos fazem parte e se aceitam como pares. A valorização é parte integrante do programa.
Valorização, dádiva e concretização (a outra parte valoriza e fecha o ciclo). Os participantes são chamados a avaliar, apreciar e a valorizar a sua experiência, a qualidade do programa e a fazer parte desta ecologia de generosidade. Fecha-se o ciclo.
Constitui-se o ecossistema. Com o cumprimento das dádivas emerge o ecossistema, que se interliga em passado-presente-futuro e nos múltiplos espaços-tempo em que cada participante e membro frequenta e se relaciona.
>Processo (P)
O modelo definido executa-se num conjunto de passos, sendo necessário listar as actividades subjacentes e a informação necessária. São 7 esses momentos/ actividades.
P.1 Anúncio
No anúncio ou na divulgação do programa/ curso é indicado que as pessoas podem candidatar-se a fazer ao programa e que a candidatura não é sinónimo de lugar garantido, porque, antes, a pessoa terá que facultar informação no acto de candidatura que servirá de pré-selecção.
P.2 Candidatura
No acto de se candidatar (formulário) a pessoa é informada que o programa não tem um valor fixo, que este será definido pelo participante, como parte do programa e que segue os princípios da economia da dádiva.
É pedido um conjunto de informações:
Identificação e contacto;
Motivação;
Intenção.
É com base na informação submetida que a candidatura da pessoa é avaliada e que a sua inscrição no programa é aceite ou rejeitada.
No caso do Deep U este processo é feito usando a inteligência colectiva de todos os antigos participantes do programa, que face às intenções dos novos candidatos, votam nas intenções que estão mais alinhadas com o programa. É feito de forma cega, sem saber que intenção pertence a que pessoa e a pessoa que não foi aceite numa edição poderá candidatar-se a outras.
É crítico que a pessoa esteja informada do modelo que vai ser seguido e que esteja de acordo com o princípios de que não há um valor fixo e que será o próprio a fixá-lo, como parte integrante do programa. O calendário e o processo são transparentes e do conhecimento das pessoas que se candidatam.
Sendo este um programa sujeito à economia da dádiva, a qualidade da intenção e o seu alinhamento com o programa são determinantes, assim como a livre, informada e consciente escolha da pessoa em participar.
É com o acto de candidatura que se estabelece o vínculo ético entre as partes, uma ética da dádiva, assim poderemos dizer.
P.3 Inscrição
Quando a candidatura da pessoa é seleccionada, a pessoa é informada. É-lhe enviada toda a informação do modelo e é pedido o seu consentimento informado e consciente, nomeadamente do modelo económico que está a ser usado, que o programa não tem valor fixo e que será o próprio a fixar como parte do programa e garantindo que este conhece e está disponível para cumprir o acordo do programa.
Se a pessoa aceitar a inscrição é formalizada. Há uma mudança de estado, um aprofundamento ético. É celebrado um contrato social entre as partes.
P.4 Preparação
Durante a preparação para o programa e antes deste, são enviados vários emails com os diferentes temas do programa. Um deles é sobre a economia da dádiva, permitindo às pessoas conhecer melhor o tema e explorá-lo por sua conta. É, também, relembrado o modelo que está a ser usado no programa, permitindo enquadrar o tema, o programa e a economia do curso.
Cumpre-se um dos valores éticos da transparência e informação para que as decisões sejam livres, informadas e conscientes.
P.5 Entrega
Quando o programa arranca há vários momentos chave:
Arranque do programa
Antes do almoço do último dia
Última dinâmica do curso
No arranque, é importante rever o processo que nos trouxe aqui e reforçar o contrato social estabelecido e o modelo económico que o serve, bem como, explicitar que a valorização é um tema do programa.
No último dia, antes do almoço, é preparada a dinâmica da tarde:
Introduz-se o modelo e revê-se todo o processo
Apresenta-se a dinâmica que se vai fazer à tarde, antes do fecho do programa
É facultado material de apoio:
cartão de valorização
lista de alguns cursos semelhantes e os seus valores de mercado
custos do programa e diversos contributos (e.g. facilitação em horas, sala)
contributos de todas as pessoas e instituições (e.g. voluntariado, prendas)
intenção, tempo e a atenção dos participantes
investimento realizado das diferentes metodologias para capacitar a facilitação no desenho, convocação, hosting e facilitação do programa
aplicação das receitas
É pedido às pessoas para reflectirem e conversarem uns com os outros sobre o tema, ou seja, iniciarem o processo individual de reflexão do tema da valorização, trazendo o desconforto para o centro do palco e colocando o tema no alinhamento do programa.
Na última dinâmica antes do fecho, as pessoas são informadas do processo e recebem a conta do programa com o valor zero. São informadas nesse momento que alguém, noutro programa, pagou a sua participação. São convidadas a reflectir sobre o valor que o programa teve para si e da forma como gostavam de perpetuar esta cadeia de valor.
Estabelece-se, aqui, outro vínculo ético, um que liga o passado, quem já fez o programa, com o futuro, quem vai fazer, ligando o valor, não só ao indivíduo mas a toda a cadeia, celebrando a interdependência e convocando a inteligência colectiva na apreciação do programa e da sua pertinência no momento presente.
Feito o convite, é pedido que as pessoas comecem a valorizar, usando o cartão de valorização:
O que foi precioso para elas deste workshop?
Qual o valor, qualitativo, que esses resultados têm? Que impactos?
Qual a minha avaliação global?
Qual a minha dádiva e como é composta (que capitais)? É importante sublinhar que as dádivas devem vir de um sítio de sustentabilidade e abundância pessoal.
Os cartões, devidamente identificados com as dádivas, são recolhidos. Poderá ser feito um balanço geral como parte da dinâmica, onde se resume todas as contribuições, todos os custos, todas as dádivas e aplicações. Em opção, poderá ser feito no contexto do pós-programa.
O processo termina com a criação de um círculo para que as pessoas possam partilhar como foi a experiência para si e o que está vivo nelas com este processo.
Ao longo do programa:
Esclarecer dúvidas;
Reforçar quando há contribuições: prendas, voluntariado, sala, comida, … ou seja, tornar explícito tudo o que foi necessário para o programa existir, incluindo a intenção, o tempo e a atenção dos participantes.
P.6 Fecho
Após o programa são recolhidas as avaliações, incluindo a avaliação sobre o bloco da valorização e dádiva. No email de fecho pode ser enviado um balanço geral do evento.
Caso não tenha sido feito um balanço do evento durante o programa, o mesmo deve ser enviado no email de fecho, garantindo o princípio de reserva.
P.7 Ecossistema
As dádivas fundamentam a emergência do ecossistema. Pessoas que se voluntariam, organizam workshops, fomentam encontros, encontram em si um sentido de identidade, um reconhecimento como fazendo parte desta rede de dar e receber, de suportar, de ajudar, de contribuir com pequenos gestos de generosidade, de amor, para outros que não sabem quem são. Cada uma destas dádivas circula no ecossistema. Cria a sua magia, uma rede invisível de amor e abundância.
A título de exemplo, no ecossistema Deep U estão a ser organizados eventos mensais de prática (e.g. SPT, Heartfulness), cujos custos (e.g. aluguer da sala) são suportados por uma bolsa criada com base nos donativos feitos durante o programa.
Honrar as dádivas das pessoas, mobilizar o ecossistema para cada uma destas actividades constitui-se como a principal actividade nesta fase.
É também no ecossistema que reside o voto para seleccionar candidatos, escolher intenções que mais próximo estão do programa. É, igualmente, no ecossistema que reside o poder de levar o programa a outros. Mobilizar estas energias é outra das actividade fundamentais.
Cuidar do sentido de identidade e tornar útil e acionável o potencial do ecossistema para cada pessoa é o seu grande desafio.
>Condição interior para uma boa aplicação (C)
A aplicação do modelo que aqui se apresenta depende da condição interior das pessoas que o vão aplicar, como seja as suas intenções, anseios, expectativas, do seu sistema de crenças, grau de abertura e apego aos resultados. As pessoas que estamos a referir são os organizadores/ hosts/ facilitadores que vão dar vida aos programas.
Há quatro atitudes que recomendamos para uma boa aplicação: experimentação, aceitação, desapego e partilha.
C.1 Atitude de experimentação
O modelo e o procedimento descrito neste documento são um ponto de partida. Cada pessoa, no seu contexto, deve procurar entender os princípios e as motivações mais profundas do modelo e experimentar nas suas situações, com abertura, com tolerância e vulnerabilidade. Expondo-se à falha, à experimentação, à aprendizagem e evoluindo o modelo de acordo com as suas necessidades e aprendizagens.
Uma leitura do livro do Charles Eisenstein e o estudo da filosofia de giftivism do ‘Service Space’ podem constituir excelentes pontos de partida para um diálogo sobre a aplicação e adaptação do modelo a outros contextos e situações.
A sugestão é experimentar como um conjunto de princípios e recomendações, não como uma receita.
C.2 Atitude de aceitação
A manifestação das dádivas podem gerar em nós múltiplos julgamentos sobre as intenções dos outros, sobre a justiça ou injustiça da dádiva, sobre o meu valor entre outros. Importa cultivar uma atitude de gratidão pela presença e atenção que a pessoa colocou à nossa disposição e aceitar que a sua dádiva é a que melhor contribui para o programa no momento, para nós, para ela e para o ‘todo’ onde se insere o programa, quem oferece e quem recebe. Há uma parte de nós que procura compreender e nem sempre é possível termos a informação toda para compreender, daí a importância de aceitar, partindo do princípio que, qualquer que seja a dádiva, é a melhor dádiva possível no momento.
Como será aceitar com a mesma leveza e paz interior uma dádiva de zero ou um dádiva de 10 vezes o valor de mercado do programa?
Não se quer dizer que a aceitação não implica avaliação, reflexão e escolha. Significa presença para escutar o que está vivo no campo social, isso pode ser continuar com o programa, alterar o seu modelo económico ou acabar com o programa. É uma aceitação activa que permite alargar o espectro da nossa observação e obtenção de mais dados, o que permitirá escolhas mais informadas e conscientes.
A sugestão é aceitar cada dádiva como a melhor dádiva possível naquele momento.
C.3 Atitude de desapego
O apego, o querer que algo aconteça, pode-nos cegar para o que está a acontecer à nossa frente. Podemos querer que o programa tenha o efeito ou resultado A ou B na pessoa; podemos querer que a sua dádiva seja em dinheiro ou em tempo ou em … Com esta atitude do querer, do apego, podemos não estar a observar o que emerge, um resultado ou efeito novo numa pessoa que não se tinha previsto; por exemplo, em workshops desenhados para estimular o espírito empreendedor, algumas pessoas manifestaram gratidão por terem a clareza que queriam o emprego tal e tal. Isso era confuso, até percebemos que empreender é um acto que se faz no tempo e que por ter empreendido ontem não quer dizer que o queira fazer hoje, ou por não o querer fazer hoje não quer dizer que não queira fazer amanhã; a clareza na pessoa e a capacidade de ela tomar uma decisão consciente eram muito mais importantes e não estava nas intenções do workshop.
Podemos também querer que uma dádiva seja em dinheiro e seja para o programa; imaginem que o programa tem um serviço de catering consciente (alimentação 100% vegetal, sem açúcar e biológica) que é pago pelas pessoas; imaginem que a dádiva de alguém é pagar as refeições das pessoas no workshop seguinte; é uma dádiva em dinheiro para um determinado fim e não deixa, directamente, dinheiro no programa, apenas paga algo que iam ser as pessoas a pagar. Aceitar esta dádiva, desapegando da forma como as dádivas deveriam ser, cria um novo espaço de possibilidades no ecossistema. Esta pessoa gostou tanto da alimentação que para ela é importante que outros possam ter a possibilidade de a experimentar. O que pode inspirar uma boa alimentação?
A sugestão é cultivar o desapego aos resultados e a forma como as dádivas se manifestam, criando espaço para o ecossistema se manifestar e fazer a sua evolução.
C.4 Atitude de partilha
Convidamos todos os que aplicarem e evoluírem este modelo a partilharem as suas experiências e a enriquecerem este modelo, por forma a estimularmos uma aprendizagem mútua e o eventual desenvolvimento de uma ‘comunidade de prática’.
É de sublinhar que esta atitude começa no evento, com a transparência do modelo e sua aplicação para os participantes, bem como a inclusão como parte do programa.
Marco de Abreu: www.marcodeabreu.com
Vasco Gaspar e Maria Daniel Brás: www.vascogaspar.com
A sugestão é partilhar em regime de Creative Commons as aprendizagens e evolução do modelo para benefício de todos nós, a começar com os participantes no programa.
>Créditos
Não podemos deixar de prestar homenagem, celebrando os contributos de várias pessoas e comunidades que nos ajudaram a navegar neste território:
Comunidade Service Space e ao seu conceito de ‘Giftivism’: www.servicespace.org
Charles Eisenstein e a ‘Sacred Economics’: www.sacred-economics.com
Claudian Dobos e Filipa Simões e ao seu modelo de ‘gift economy’ em particular nos formatos ‘Open Heart’ e ‘Deep Ecology’: www.aurora-community.org
Marco de Abreu e a sua experimentação da economia da dádiva e da ética do gratuito na João Sem Medo: www.joaosemmedo.org


