Energia nas Sociedades Regenerativas
As últimas e as próximas de... Marco de Abreu (Set.2025)
(imagem do phys.org/ CC0 Public Domain)
O significado da palavra “energia” neste artigo é no sentido de facultar energia (fonte de energia) as infra-estruturas, aos mundojogos, como a electricidade, petróleo, gás natural.
É talvez um dos temas mais desafiantes de falar no contexto das Sociedades Regenerativas e um dos mais importantes. A energia está para a economia e vida em sociedade como o modelo de Ser Humano está para a inicição, educação, saúde e bem-estar entre outros. É basilar.
Na sociedade moderna (quase) tudo é dependente de uma fonte de energia, em particular da energia eléctrica. Quiebres como o apagão que aconteceu em Portugal em Abril de 2025 e que acontece em outras zonas do Mundo por várias razões (e.g. limitações da infra-estrutura, excesso de consumo, desastres naturais). Ou a greve dos motoristas de matérias perigosas em Abril de 2019. De repente ficamos sem energia eléctrica (ou sem combustível para os veículos). E eu pude notar como a minha vida é dependente da energia eléctrica: não podia trabalhar porque uso o computador e a internet; não conseguia falar com os meus filhos que estavam fora de casa pois os telemóveis não funcionavam; nada de distrações (e.g. TV, Netflix, jogos). As lojas fecharam e a comida esgotou. Os sistemas foram desligando em cascata.
O Mapa dos 6 tipos de Civilizações, classifica as civilizações e o seu grau de evolução em relação a origem e a forma como fazem uso da energia (Escala de Kardashev extendida) - inicialmente proposta por Nikolai Kardashev, 1964, e depois expandida por Carl Sagan com o Tipo 0 e mais recentemente com os Tipos IV e V:
Tipo 0 – Civilização que ainda não utiliza toda a energia do seu planeta. Depende de combustíveis fósseis e fontes parciais. (Actualmente estamos em cerca de 0,7 na Terra)
Tipo I – Controla toda a energia disponível no planeta natal (clima, geotermia, oceano, fissão, fusão) - vamos a Lua e talvez Marte com custos elevados
Tipo II – Capta e utiliza toda a energia emitida pela sua estrela (e.g. Esfera de Dyson) - navegamos no nosso sistema solar e para além
Tipo III – Controla toda a energia de uma galáxia, manipulando milhões de estrelas - navegamos no universo
Tipo IV – Utiliza toda a energia do universo observável (buracos negros, matéria escura, manipulação do espaço-tempo).
Tipo V – Civilização capaz de extrair energia de múltiplos universos (multiverso) e operar em escalas transdimensionais.
A nossa civilização é Tipo 0 e caminha para Tipo I. A importância de descontinuar com os combustíveis fósseis (Tipo 0) é tanto ecologia, como económica, como social e espiritual - é um imperativo como ilustra o filme Syriana (2005) de Stephen Gaghan com George Clooney, Matt Damon, Amanda Peet, et all (imdb.com/title/tt0365737) - um filme que fala sobre como a industria da energia baseada no petróleo ‘faz negócio’, dos impactos sistémicos, da corrupção sistémica, das estruturas meméticas pré-convencionais, mágico-míticas (na teoria integral) e vermelhas (na spiral dynamics). Levou-me para o filme do Martin Scorsese Killers of the Flower Moon (2023) com Leonardo DiCaprio, Robert De Niro et all, um filme histórico baseado em fatos reais, que narra os assassinatos de membros da tribo Osage nos anos 1920, em Oklahoma, motivados pela cobiça pelo petróleo - os memes que informaram o nascimento desta industria (imdb.com/title/tt5537002):
‘Vale tudo’ do lado dos empresários e ‘dono dos recursos’.
‘Não quero saber’ do lado dos consumidores.
‘Faz de conta’ das autoridades.
‘Queimar o Planeta’ para todos.
Usando o Framework dos 3 Horizontes:
Horizonte 1: Tipo 0
Descontinuar com os combustíveis fósseis (carvão, petróleo, gás natural)
Desenvolver e substituir pelas tecnologias tipo I
Horizonte 2: Tipo I
Solar direta (e.g. painéis, concentradores)
Eólica (vento)
Hídrica (rios, marés, ondas)
Geotérmica
Fissão e fusão nuclear
Controle climático e sísmico
Desenvolver e substituir pelas tecnologias tipo II
Horizonte 3: Tipo II
Descontinuar Tipo I
Desenvolver e substituir por Tipo II
Há pelos menos 250 anos que usamos os combustíveis fosseis de forma massiva, primeiro com o carvão, depois com o petróleo e a seguir com o gás natural. Nikola Tesla nas décadas 1890/1900 iniciou um conjunto de experimentos para nos ajudar a encontrar fontes de energia que nos pudessem levar ao Tipo I, utilizando energia sem fios e aproveitando o potencial energético da Terra - ver os filmes “The Prestige” (2006), “Tesla” (2020) e o documentário “Tesla: Master of Lightning” (2000). É por esta altura que começa também a exploração hidroeléctrica.
A era nuclear começou a cerca de 70 anos e temos Chernobyl (ver série documental “Chernobyl”, 2019)e Fukushima (ver filme “Fukushima 50”, 2020).
Nos últimos 50 a 70 anos começamos a explorar a geotermica, solar e eólica. Os documentários “Planet of the Humans”, 2019, e Bright Green Lies, 2021 dão conta do lado menos falado. Não há soluções perfeitas e precisamos continuar a avançar - e não vou falar dos combustíveis chamados verdes ou biocombustíveis. Precisamos de experimentar, explorar, combinar as diferentes tecnológicas. Não há solução perfeita, desde o impacto nos ecosistemas, a não sustentabilidade na construção e no final do ciclo de vida, falta de capacidade para a industria, disponibilidade tecnologia entre outros. O hidrogénio será tipo I se for produzido a partir de renováveis ou tipo zero de outra forma.
Há esforços na energia nucleear como o consórcio ITER (International Thermonuclear Experimental Reactor), o Generation IV International Forum (GIF) para os reactores de 4ª geração, os reactores de fusão por stellarator ou a Missão Internacional em Energia Limpa (Mission Innovation) para as energias ditas renovários. Em geral todos operam no Horizonte 1 e 2, como base no que existe, nos modelos mentais conhecidos.
O reactores de Stellarator (exemplo: Francesco A. Volpe / Renaissance Fusion) são de Fusão nuclear (junção de núcleos leves, como deutério e trítio → hélio + energia) e funcionam com plasma ultrafrio (na prática: > 100 milhões °C) é confinado em campos magnéticos 3D gerados por supercondutores. O stellarator é estável porque não depende de correntes internas no plasma (ao contrário dos tokamaks). Não gera resíduos radioativos de longa duração, o combustível abundante (hidrogénio da água, lítio para trítio), é seguro, se algo falha, o plasma desliga, energia praticamente inesgotável a longo prazo. É extremamente difícil e caro de construir, está em fase experimental (horizonte 2) e precisa resolver problemas de materiais, extração de calor e economia - na série documental do Gaia.TV, Road to Utopia, é apresentado como uma das grande promessas.
Uma possibilidade que alguns países (EUA, Europa, India, China) estão a explorar são os Reatores de Tório, Tipo I, que não sendo uma solução de futuro (longo-longo prazo) pode dar-nos algumas gerações para encontramos e desenvolvermos soluções mais Tipo II. Não tem as desvantagens do nuclear (em particular o urânio, com os resíduos, desastres e armas nucleares), o tório existe em todo o Mundo e consegue potências que podem ser suficientes.
Nenhum deles está nas Sociedades Regenerativas. Estão nas Sociedades de Mercado ou no limite de Impacto.
Uma outra possibilidade é a Energia do Vácuo (também chamada de Vácuo Quântico, Energia do Ponto Zero ou Energia do Campo Zero), que começou a ser investigada com mais profundidade após a descoberta do campo e do bóson de Higgs. Penso que será mais horizonte 3 ou posterior e o que pode resultar será mais de tipo II a III, dependendo de onde a vamos usar.
Gregg Braden reflete sobre este tema, das limitações as ‘energias verdes’ e destas possibilidades em:
A energia afecta (quase) todas as actividades humanas, deste mobilidade, produção de alimentos, vestuário, móveis, planeamento urbano, indústria, educação, saúde, artes, comunidades … A transformação no mundojogo da energia é uma transformação quw tem o efeito de mudar todo o sistema. Aplicando os 4 sistemas operativos das sociedades a Energia, temos:
Sociedades Tradicionais: recursos infinitos, fósseis, extraídos da Terra; humano é um recurso; centrado na fonte; muito desperdício na transmissão - Killers of the Flower Moon (2023) - tipicamente tipo 0.
Sociedades de Mercado: negócio da energia; entrada do nuclear; alguém vai resolver as externalidades, tipicamente as gerações futuras (e.g. resíduos nucleares, minas de carvão, desastres de petróleo); centrado na eficácia da produção; inovação em produto e processo - filme Syriana (2005) - finais do tipo 0 e Tipo I.
Sociedades de Impacto: multi-stakeholders; a Terra e as Gerações Futuras sentam-se a mesa, assim como os povos nativos e as comunidades locais; potenciar o renovável (e.g. solar, eólica, geotermica); incorporar as externalidades. Em Portugal a Coopernico esta a trabalhar nesta área. Tipo I melhorado e diversidade de fontes - produção de energia a partir de resíduos orgânicos. Reactores de Tório.
Sociedades Regenerativas: como o facto de estar a usar esta energia torna o meu ecosistema melhor ? como o restaurei ou regenerei com o uso da energia ? como faço parte de todo este ecosistema ? As soluções passaram por encontrar tecnologias de tipo II ou superior como a Energia do Vácuo. Sistemas circulares, adequados a escala; renováveis; locais, abundante e que se transforma em diferentes tipos de energia passíveis de ser utilizados no ecosistema; talvez não haja uma solução global para já, talvez haja muitas soluções locais.
Algumas histórias:
Há alguns locais que fazem sumos com fruta da época em que é a própria pessoa que pedala, numa ‘bicicleta’, para acionar o misturador. Num lógica de ‘horta à mesa’, com frutas locais e de época, com compostagem, é uma história regenerativa em que a energia regenerativa em que todo o sistema ganha, assegurando que a ‘bicicleta’ também esta incluída neste sistema.
Um amigo criou um espaço na floresta para pequenos eventos. A sala foi feita em bambu local e construída localmente com materiais reciclados e da floresta. As casas de banho secas. O aquecimento faz-se através de um sistema que usa as sobras da floresta e da sua limpeza. O equipamento de aquecimento é mecânico, não tem electrónica, é muito eficiente (por desenho) e feito em ferro. Todo o sistema de aquecimento é circular e, naquela escala, regenerativo. Há ganhando acontecendo. Mais floresta, mais solo, mais biodiversidade.
As habitações mais evoluídas neste contexto, tem um foco na diminuição do consumo energético e usam um mix, tem paneis solares para uma parte das suas necessidades, tem desenho para potenciar as fontes passivas de acordo com as condições locais de exposição solar (arquitctura bioclimática) ou coberturas vegetais, podem usar alguma biomassa se houver produção local e/ou biogás. As ecoaldeias potenciam muitas das dinâmicas. Um exemplo é a ilha de Ilha de Eigg e o contexto é adulto maduro/ restaurativo no limite.
A área de energia sendo uma das mais importantes, é uma em que não há soluções verdadeiramente regenerativas, em particular com escala. A grande maioria das soluções e inovações surge no espaço das sociedades de impacto ou como inovações nas sociedades de mercado.
Há a sensação que estamos presos em formas de pensar limitadas e fechadas, muito tecnologias e que seguem o fluxo da civilização dos últimso 2000 anos. E precisamos de todas as perspectivas, de todas as ideias, para fazer sentido e a criar possibilidades que nos ajudem a caminhar na direcção das Sociedades Regenerativas. Onde nos podemos inspirar ?
É uma área onde há muitos interesses instalados e com guerra presente - uma parte dos conflitos que vemos no Mundo hoje devem-se a energia. Há muita especulação em torno do tema da inovação nesta área, não se consegue inovar por limitações científicas ? ou são os interesses deste sector que inibem esta inovação - há vários interesses como a industria dos combustíveis fósseis, a do nuclear e, hoje, a das ‘tecnologias limpas’.
O documentário Unacknowledged de Steven Greer percorre uma linha não linear - talvez nestas pessoas haja ideias que podem criar novas possibilidades - precisamos de começar a pensar e a recorrer a outras formas de pensar sobre a energia.
No contexto actual, penso que o caminho é ir tanto quando possível na direcção das renováveis como a solar e a eólica, soluções locais, baseadas em Comunidades de Produção de Energia, com mix de energia, acompanhada com a diminuição dos consumos por eficiência de design, por exemplo. E por outro apostar numa tecnologia como os reatores de tório para consumos mais elevados e zonas urbanas densas. Em paralelo iniciar a investigação séria e internacional nesta área, como fizemos com o genoma humano ou a exploração espacial - verdadeira colaboração internacional. Para chegarmos a novos mapas de energia como por exemplo a Energia do Vácuo. Penso que precisamos de um esforço concertado, um ‘projecto do genoma humano’ para energia em cada um dos horizontes - no horizonte 1 já existem vários como indicamos acima; no horizonte 2 e 3 nem por isso. E o futuro está aqui!
AGENDA (2025)
Setembro
Grupo de Estudo do Livro (semanal as 2as feiras das 18h às 19h)
3 de Setembro Entrevista para o Canal Design Regenerativo com Flávia Vivacqua (ver em no link www.youtube.com/watch?v=EHcEe8Ax4S8)
Bambual Portugal apresenta Programa de Introdução às Sociedades Regenerativas, online, com oferta do livro “A Emergência das Sociedades de Comuns” - Inicia a 22 de Setembro de 2025 às 19h.
Apresentação do Livro no Espaço Isabel Prata Coelho, Parede, 13.Set, 18h30, acesso livre
Apresentação do Livro na Casa da Achada, Lisboa, 18.Set, 18h, acesso livre
Apresentação do Livro na Nave Mãe, Portalegre, 20.Set, 15h, Evento COMUNS organizado pela Nave Mãe/ Sete Fontes / UMCOLECTIVO, acesso livre
Homens de Emoções, 27 de Setembro às 9h, Carcavelos (para homens)
Outubro
Grupo de Estudo do Livro (semanal as 2as feiras das 18h às 19h)
Introdução às SOCIEDADES REGENERATIVAS, Online, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil
Apresentação do Livro no Festival Destralh’arte, Mafra, 19.Out, 18h, acesso livre
EMPOWER YOUR LIFE: SAÚDE, S. Luís, Odemira, 30, 31 de Outubro e 1 e 2 de Novembro
Organizado pela Equipa Saúde para profissionais de saúde, é um retiro de exploração do que pode ser a Saúde em Sociedades Regenerativas e de cuidado dos profissionais de saúde.
Novembro
(os últimos) E SE…
E SE… ... tivéssemos um 'apagão' programado todos os meses ?
Outros “E SE…” podem ser vistos no link.
“E SE…” é um espaço no canal, onde crio possibilidades de experimentação (portais) para pessoas, famílias, equipas, organizações, comunidades poderem entrarem nas Sociedades Regenerativas e experimentarem modelos diferentes de colaboração, organização, financiamento, educação, bem-estar, …
É um espaço inspirado pelo livro E SE… do Rob Hopkins, co-fundador do Movimento Transição, que a Bambual Portugal publica em Português.





Suponho que saibas que a energia é um dos meus temas de paixão. Deixo-te aqui algumas notas que julgo que completam o teu retrato.
No início dizes que "tudo é dependente de uma fonte de energia, em particular da energia eléctrica.", no entanto, na Europa, apenas cerca de 25% da energia final (a que utilizamos mesmo, já depois das conversões) é energia eléctrica. O resto são combustíveis, energia térmica e biomassa.
O petróleo que continuamos a retirar do subsolo (cada vez de forma mais difícil e mais cara, embora ainda não tenhamos começado a reduzir o consumo anual) é necessário para mais do que combustíveis, designadamente todos os plásticos e a quase totalidade dos fertilizantes que contribuem para "alimentar" a humanidade.
Um podcast que recomendo para quem se interesse pelo tema, numa abordagem muito completa e "wide boundaries", é o The Great Simplification, do Nate Hagens. Acho-o fundamental para perceber a complexidade da área da energia e a sua relação com a economia e a sustentabilidade ecológica.
A ideia de que poderemos em breve substituir os combustíveis fósseis por energias renováveis, em particular solar, eólica e hídrica, é uma quimera infantil (não te acuso disso, mas é uma ideia que está na base de muito activismo actual).
Honestamente, e sei que é polémico dizer isso, estou absolutamente convencido de que não é possível manter na face da Terra 7 mil milhões de humanos sem a utilização do ouro negro em que nos viciámos como espécie. E este está a chegar ao fim. Estamos a rapar o tacho.
Não consigo entender de que forma se safará a humanidade deste beco em que se enfiou, mas garantidamente não será com parques solares nem eólicos.
Agradeço a sugestão. Tenho andado a recuperar e-mail pendente. Lá chegarei. Abraço.