Caso de Estudo: Buurtzorg
Caso de Estudo, Saúde, Organizações Integral
Um Modelo de Organização Integral na Saúde
O que é a Buurtzorg?
Buurtzorg é uma organização de cuidados de saúde ao domício (em casa) fundada na Holanda, que ficou conhecida por revolucionar o setor da saúde com um modelo baseado em equipas auto-organizadas, autonomia profissional e atenção humanizada ao paciente - organizações integrais.
Foi criada em 2006 por Jos de Blok, um enfermeiro, como resposta a um sistema de saúde fragmentado, burocrático e impessoal. Há data de 2025 são cerca de 9000 enfermeiros que cobrem o país.
Em holandês, “Buurtzorg” significa “cuidados de bairro” ou “cuidados na comunidade”.
Como funciona a Buurtzorg?
O modelo da Buurtzorg baseia-se em princípios regenerativos e descentralizados. Eis como funciona:
1. Equipas auto-organizadas
Grupos de 10 a 12 enfermeiros trabalham juntos sem chefes.
Gerem os próprios horários, atendimentos, decisões clínicas e contratações.
Têm total autonomia para adaptar o cuidado às necessidades de cada paciente.
2. Pouca burocracia
Usam uma plataforma digital simples e eficiente.
A burocracia foi reduzida ao mínimo, permitindo que os enfermeiros passem mais tempo com os pacientes.
3. Coaches em vez de gestores
Não há chefias tradicionais.
Cada equipa tem acesso a coaches, que apoiam o grupo sem impor regras.
4. Cuidado integral e contínuo
Os mesmos profissionais acompanham o paciente do início ao fim do tratamento.
Foco na relação humana e no bem-estar da pessoa como um todo, não apenas na doença.
5. Organizado por comunidade/bairro
Cada equipa é responsável por uma área local, conhecendo a comunidade e integrando-se com ela.
Quais os resultados ?
Menos custos administrativos (até -30%)
Altíssima satisfação dos pacientes e enfermeiros
Baixa taxa de burnout
Modelo replicado em mais de 25 países
Como começou ?
O sistema de saúde ao domicílio na Holanda estava fragmentado e burocratizado no início dos anos 2000. Os enfermeiros passavam mais tempo preenchendo formulários do que cuidando dos pacientes, e a desmotivação dos profissionais era elevada. As grandes empresas de saúde focavam na eficiência operacional, o que resultava, muitas vezes, num atendimento impessoal e mecanizado.
Diante desse cenário, Jos de Blok, um enfermeiro experiente, percebeu a necessidade urgente de um novo modelo que restaurasse a autonomia dos profissionais de saúde e devolvesse o cuidado humanizado aos pacientes. Foi assim que, em 2006, fundou a Buurtzorg, um sistema de cuidados de saúde ao domicílio baseado em equipas auto-organizadas, focadas na comunidade e na autonomia profissional.
Qual o enquadramento ?
Antes da criação da Buurtzorg, o setor de cuidados de saúde ao domícilio na Holanda era altamente burocrático, com gestores administrativos determinando as rotinas dos enfermeiros. O modelo tradicional apresentava os seguintes problemas:
Carga administrativa excessiva: Enfermeiros gastavam até 50% do seu tempo preenchendo documentos.
Falta de autonomia: Os profissionais tinham pouca flexibilidade para adaptar o cuidado às necessidades individuais dos pacientes.
Altos custos administrativos: Grande parte do orçamento da saúde ia para gestão e não para o atendimento direto.
Insatisfação e alta rotatividade: Os enfermeiros sentiam-se desmotivados e havia um elevado número de baixas por stress e burnout.
Diante desse panorama, a Buurtzorg nasceu como uma resposta regenerativa, focada na reconstrução do vínculo entre cuidadores e pacientes e na valorização da autonomia profissional.
Como foi a transição ?
A Buurtzorg foi fundada com base em princípios regenerativos, onde a liderança hierárquica foi substituída por equipas auto-organizadas. Os principais elementos do modelo foram:
Equipas auto-organizadas: Grupos de 10 a 12 enfermeiros geriam suas próprias escalas, contratações e atendimentos sem supervisão tradicional.
Foco na comunidade: Cada equipa era responsável por uma determinada área, promovendo um cuidado mais personalizado e integrado.
Redução da burocracia: Foi criada uma plataforma digital intuitiva para simplificar a administração, permitindo que os enfermeiros se concentrassem no cuidado.
Coaches em vez de gestores: Em vez de supervisores, as equipas tinham acesso a coaches que os ajudavam a resolver problemas sem impor regras.
Atenção à pessoa como um todo: Em vez de tarefas fragmentadas, os enfermeiros acompanhavam os pacientes ao longo de todo o tratamento, promovendo um atendimento mais humanizado.
A implementação foi gradual, começando com uma primeira equipa de enfermeiros e depois expandindo-se, equipa a equipa, à medida que o sucesso se tornava evidente.
Como foi a resposta ao novo ?
Inicialmente, houve resistência por parte das grandes empresas de saúde e seguradoras, que viam o modelo da Buurtzorg como uma ameaça. Os desafios incluíram:
Dificuldade de adaptação dos enfermeiros: Profissionais acostumados a seguir ordens tiveram que aprender a trabalhar de forma autónoma.
Cepticismo de investidores e governo: O modelo parecia demasiado inovador para ser sustentável a longo prazo.
Conflitos internos: Algumas equipas tiveram dificuldades em tomar decisões coletivas no início.
No entanto, à medida que os resultados começaram a surgir, a resistência diminuiu. Os benefícios foram evidentes tanto para os pacientes quanto para os profissionais de saúde.
Quais os impactos ?
A Buurtzorg rapidamente provou que o seu modelo era mais eficiente e humano do que o sistema tradicional. Os principais impactos incluem:
Redução de custos: Os custos administrativos caíram em 30%, uma vez que as equipas eram autogeridas.
Maior satisfação dos pacientes: 80% dos pacientes relataram um aumento na qualidade do atendimento e na continuidade do cuidado.
Bem-estar dos enfermeiros: A taxa de absentismo caiu para menos de 4%, um número significativamente menor do que em empresas tradicionais.
Internacionalização: O modelo foi replicado em mais de 25 países, incluindo Suécia, Alemanha, Japão e Estados Unidos.
Jos de Blok partilhou abertamente a metodologia com outras organizações e até ajudou concorrentes a implementar modelos semelhantes, acreditando que a saúde pública só melhora quando há colaboração e não competição.
Aprendizagens
A Buurtzorg demonstrou que a inovação organizacional não é apenas um conceito teórico, mas uma prática concreta que pode ser aplicada em grande escala. Algumas das principais lições incluem:
A autonomia gera eficiência: Quando profissionais têm liberdade para decidir, tomam melhores decisões e aumentam o seu compromisso.
Menos burocracia, mais impacto: A eliminação de camadas hierárquicas melhora o atendimento e reduz custos.
O modelo é replicável: Não se trata apenas de um caso isolado na Holanda – outras culturas e sistemas de saúde já adotaram o modelo com sucesso.
A confiança é a chave para a inovação: O sucesso da Buurtzorg dependeu de confiar nos enfermeiros para liderarem o próprio trabalho.
A transição para modelos regenerativos exige coragem e disposição para navegar pelo desconhecido, mas a Buurtzorg mostrou que, quando isso é feito com intenção e propósito, os benefícios são profundos e duradouros.
Protótipo em Portugal
O projeto Saúde Positiva em Casa (SPC), iniciado em 2021 no distrito de Bragança, Portugal, inspirou-se no modelo holandês Buurtzorg para oferecer cuidados domiciliários a idosos com demência ou fragilidade. O foco principal foi integrar cuidadores informais e promover formação em Humanitude, capacitando-os para oferecer cuidados mais humanos e personalizados. A iniciativa apostou em equipas multidisciplinares que acompanham os pacientes de forma contínua e integral, reforçando a autonomia e o bem-estar dos idosos em seu próprio ambiente.
A partir de 2023, o projeto evoluiu para o programa Domus Vitae, sob a gestão da Santa Casa da Misericórdia de Bragança, expandindo o atendimento a cerca de 60 idosos e envolvendo financiamento da Fundação Calouste Gulbenkian e apoio institucional. O programa oferece reabilitação, treino cognitivo e avaliações contínuas, tendo como objetivo principal evitar a institucionalização precoce e promover a permanência dos idosos em casa pelo maior tempo possível. O sucesso do projeto resultou em reconhecimento nacional e replicação de boas práticas na região.
Hoje, o modelo de cuidados domiciliários desenvolvido em Bragança serve como referência para reforçar a assistência a idosos no norte de Portugal, com parcerias estabelecidas entre a Unidade Local de Saúde do Nordeste e instituições regionais. A iniciativa demonstra a viabilidade de aplicar princípios regenerativos e integrados no contexto português, valorizando a formação dos cuidadores informais e a humanização do cuidado, alinhando-se com as tendências globais de saúde comunitária.
Texto da conferência e artigo original (IPB - Instituto Politécnico de Bragança):
https://bibliotecadigital.ipb.pt/handle/10198/23946Página oficial da Santa Casa da Misericórdia de Bragança - Projeto Domus Vitae:
https://scm-braganca.pt/domus-vitae/Informação sobre o projeto Domus Vitae e apoio da Fundação Calouste Gulbenkian:
https://scm-braganca.pt/projeto-domus-vitae-2/Notícia sobre parcerias e expansão dos cuidados domiciliários na região (HealthNews Portugal):
https://healthnews.pt/2025/05/15/uls-do-nordeste-reforca-cuidados-de-saude-em-lares-de-idosos-2/
Mapa das Sociedades Regenerativas
Usando o Mapa das Sociedades Regenerativas, apresentado no livro “A Emergência das Sociedades de Comuns”, Marco de Abreu, 2025, para fazer sentido deste caso temos:
Contexto
Mundojogo Regenerativo
Nível de pensamento em responsabilidade: Alta
Para Jos o mundojogo não funcionava e ele criou um novo; assumiu responsabilidade por si e por todos os outros.
Na prestação de cuidados de saúde, o foco esta mais na medicina alopática, sendo a direcção é mais Sociedade de Impacto (nível adulto).
Nível de pensamento em sustentabilidade: Reconciliador
As equipas são parte da comunidade e a comunidade é chamada a servir; a equipa cuida das suas pessoas; deixa de haver nós (cuidadores) e eles (cuidados) - todos cuidamos
Nível de pensamento em transparência: Aberto
Informação é disponibilizada para todo o sistema, concorrentes, outros operadores, dentro das equipas, é aberta e colocada em uso para um bem maior
Mapas
Sociedade Regenerativa
Trabalho em equipas auto-organizadas que co-criam
Reforçar as fontes de bem-estar internas em comunidade
E, na prestação de cuidados de saúde, o foco esta mais na medicina alopática - a direcção é mais Sociedade de Impacto: foco no paciente.
Consciência
Usam Comunicação Não Violenta (individual e relação) e Deep Democracy (equipa e rede)
Inconsciente
Usam Deep Democracy que foi originado no Process Work que trabalha a sombra e o inconsciente
Natureza
Não tenho informação sobre o tema. Ponto a trabalhar no mundojogo.
Equipas
Organizações Integrais ou teal
Equipas de enfermeiros
Equipa de coaching
Desconhecido
Cada equipa tem a capacidade de inovar lidar com o desconhecido com prototipagem e experimentação
A cada 6 meses as inovações são apresentadas as rede e podem ser adoptadas por outras equipas
Mapa das Sociedades de Comuns
Usando o Mapa das Sociedades de Comuns, apresentado no livro “A Emergência das Sociedades de Comuns”, Marco de Abreu, 2025, para fazer sentido deste caso temos:
Bem-Comum: Saúde e Bem-estar, cuidados de saúde ao domícílio
Comuns: enfermeiros e pacientes em cada comunidade
Legado: o legado da Buurtzorg transcende a prestação de cuidados de saúde — é uma proposta viva para transformar a forma como trabalhamos, cuidamos, lideramos e nos relacionamos em sociedade.
Propósito: O propósito maior da Buurtzorg é "colocar o cuidado no centro do sistema de saúde", devolvendo autonomia aos profissionais e dignidade aos pacientes, através de relações humanas autênticas e de um modelo organizacional simples, sustentável e centrado na comunidade.
Organização de comuns: a Buurtzorg é uma forte candidata a organização de comuns trabalhando os seus princípios no dia a dia (a sua estrutura jurídica
Anel de Legitimidade: Estado, Seguradoras
Anel de Conhecimento: Sistema de saúde
Anel de Missão: Enfermeiros, Pacientes, Equipa Administrativa
Propriedade de Comuns: na prática a Buurtzorg é uma propriedade de comuns e juridicamente é uma empresa limitada detida pelo seu fundador, Jos de Blok. Este é o ponto de melhoria.
Ética de comuns: cada pessoa que participa nesta organização assume a sua responsabilidade por fazer parte e deixa todo o sistema melhor.
Economia de Comuns:
Sistema de Saúde da Holanda
É um modelo misto público-privado com cobertura universal obrigatória.
Todos os cidadãos holandeses são obrigados por lei a contratar um seguro básico de saúde, com subsídios do Estado para quem tem rendimentos mais baixos.
As seguradoras privadas são obrigadas a aceitar todos os cidadãos e a oferecer o mesmo pacote de serviços essenciais.
Os prestadores de cuidados (como a Buurtzorg) são pagos diretamente pelas seguradoras.
Financiamento da Buurtzorg
Buurtzorg não cobra diretamente dos pacientes.
Recebe financiamento das seguradoras de saúde pelo serviço de cuidados domiciliários prestado.
O valor pago por paciente é negociado com as seguradoras, mas é regulado por um quadro nacional.
Como Buurtzorg é muito eficiente e tem custos administrativos baixos, consegue oferecer cuidados de alta qualidade por um custo menor do que o modelo tradicional.
Referências
Website oficial com estudos, manuais e vídeos sobre o modelo:
https://www.buurtzorg.com
Jos de Blok (em holandês e inglês).
Buurtzorg: Humanity Above Bureaucracy.
Frederic Laloux (2014).
Reinventing Organizations: A Guide to Creating Organizations Inspired by the Next Stage of Human Consciousness.Kreitzer, M. J., Monsen, K. A., Nandram, S. S., & De Blok, J. (2015).
Buurtzorg Nederland: A global model for relationship-based care and best practices in community care. Global Advances in Health and Medicine, 4(1), 40–44.Monsen, K. A., et al. (2017).
Buurtzorg: Nurse-led community care – A solution for ageing populations and stretched budgets? American Journal of Nursing, 117(9), 42–50.Gray, B. H., Sarnak, D. O., & Burgers, J. S. (2015).
Home Care by Self-Governing Nursing Teams: The Netherlands’ Buurtzorg Model.
Commonwealth Fund, Issue Brief, May 2015.
Outros links:
Entrevista com Dunia Reverter (organizações teal / integrais)



